24 de abril de 2014

NOTA DE ESCLARECIMENTO: EM RESPOSTA A MATÉRIA PUBLICADA NO BLOG CUITEPBONLINE - SOBRE DENÚNCIA DA OBSTETRA DO ISEA



A Secretaria Municipal de Saúde de Cuité em resposta  a matéria  publicada no Blog Cuitépbonline, sob o título ”REPÚDIO-Obstetra do  ISEA denuncia que o bebe cuiteense morreu por falta de atendimento em Hospital Municipal de Cuité”, vem  esclarecer os fatos  acerca do episódio veiculado, inicialmente publicando a manifestação do Drº Alisson Salvador, CRM 8810, médico da USA-37, que presta serviço  no SAMU de Cuité conforme segue abaixo:
(não irei me recordar precisamente dos horários, mas acredito que todos eles ficaram bem registrados no SAMU)

Ontem pela manhã a USA-37, composta por mim, enfermeira Jackelline e condutor-socorrista Umissias, foi acionada para responder a uma ocorrência informada como "gestante perdendo sangue". Comparecemos rapidamente ao endereço indicado, onde encontramos a paciente em sua cama, sobre lençóis sujos por quantidade moderada de sangue vermelho vivo, ou seja de proveniência arterial. Fechamos a porta e foi feita a inspeção da vulva, que constatou que o sangramento encontrava-se naquele momento estancado. Solicitamos à paciente para vestir-se, e pegamos com a família todos os documentos e exames pertencentes ao pré-natal da paciente. Quando ela levantou-se para comparecer à maca, um novo sangramento desceu; quantidade moderada de sangramento vermelho vivo com coágulos.

Algumas mulheres presenciaram na casa, fora do quarto. A mãe, obviamente preocupada, perguntou a mim: "E agora, Dr.?" - E eu respondi enfaticamente com as palavras: "Cesariana. Agora." Foi-me dito pela equipe que o hospital encontrava-se sem o anestesiologista, devido ao feriadão. Porém que no hospital encontrava-se de plantão o Dr.Henriques, que se não me falha a memória é obstetra de formação. Informei a família que a paciente seguiria para Picuí ou Campina Grande para realização de cesariana de urgência, ou seja, a conduta para aquela patologia. E este ponto é importante, porque ao contrário do que diz a médica campinense, eu, médico, vi, avaliei a paciente, estabeleci o diagnóstico correto e a conduta correta ali mesmo na residência. E ela coloca como se a paciente tivesse sido negligenciada por não ter sido vista pela médica. E que "se tivesse sido vista pela médica a situação seria diferente", o que não seria.

Seguimos ao Hospital Municipal de Cuité apenas para o Dr.Henriques dar o seu parecer, e para eu regular a paciente e seguirmos viagem para a cidade a ser especificada pela regulação. Ao descer no hospital, soube que o médico plantonista não era Henriques, e sim a Dra.Germínia, que estava em sua sala, em atendimento. Como eu já sabia que um parecer da Dra. Germínia NÃO alteraria o prognóstico da paciente, pois a única coisa capaz de alterar o prognóstico seria a própria resolução da gestação através da realização da cesariana em bloco cirúrgico em caráter de urgência, apenas passei o caso para ela e avisei que seguiríamos viagem rapidamente. Perguntei a Dra. se havia equipe disponível em Picuí. Ela respondeu-me que Picuí encontrava-se na mesma situação de Cuité, sem anestesiologista, e que ela já teria entrado em contato com o hospital de Picuí naquela manhã mesmo, ao tentar encaminhar outras duas gestantes não-complicadas.

Acionei a regulação-Campina Grande do SAMU e passei o caso. Informei que Cuité e Picuí estavam sem equipe preparada para a realização do procedimento cirúrgico, e foi então sugerido o encaminhamento às pressas para o ISEA. Preparamos as coisas e seguimos viagem. Alguns minutos foram perdidos ao esperar um familiar trazer as coisas do bebê de moto, mas seguimos viagem.

Após a descida da ladeira, saindo de Cuité, recebo ligação da regulação-Cg afirmando que havia outra ocorrência de USA, e que minha paciente era para ser entregue à USB-Barra de Santa Rosa, que se encarregaria de fazer a remoção para o ISEA, enquanto eu iria responder a uma ocorrência que naquele momento parecia ainda mais urgente: provável TCE em recém-nascido (RN) com provável parada cardiorrespiratória. Estranhei muito a mudança drástica de eventos, mas acatei a decisão da regulação. Alguns minutos mais tarde, novo contato com a regulação me informava que a equipe da Básica em Barra de Santa Rosa encontrava-se já fazendo reanimação cardiorrespiratória da vítima, o que é talvez a mais grave das situações em Emergência. Encontrava-se ao lado dos Correios e estávamos para fazer a permuta de pacientes ali.

Chegamos ao local. Apressei-me com o material de reanimação e suporte avançado até o recém-nascido, que encontrava-se dentro de um pronto-socorro. O RN havia respondido à reanimação inicial, e encontrava-se com choro fraco, hipoativo, e com respiração dificultosa. Era um RN sexo feminino de 02 meses de idade. Fomos informados que o RN foi encontrado cianótico e entrando em falência respiratória, após pedido de socorro feito pela vizinha da mãe, que tomava conta do bebê. A mãe é portadora de necessidade de cuidados especiais do ponto de vista neurológico/psiquiátrico, e havia deixado o bebê aos cuidados da vizinha, que não estava presente. Ninguém sabia informar o que teria acontecido ao bebê! O que deixou nossa equipe e a deles manejando o paciente às cegas. Informei a equipe da Básica para ir para fora pegar a gestante e levar imediatamente ao ISEA.

Seguimos viagem com a RN em insuficiência respiratória, que evoluiu bem durante o percurso e foi entregue com vida aos cuidados do Hospital do Trauma - Cg.

A meu ver, a médica cometeu vários erros em seu repúdio:
1. O DE DAR A IMPRESSÃO DE NEGLIGÊNCIA: a paciente foi avaliada por mim. Diagnosticada. E teve a conduta para a patologia estabelecida corretamente.
2. O DE DAR A IMPRESSÃO DE QUE A AVALIAÇÃO DA MÉDICA PLANTONISTA ALTERARIA O DESFECHO: não alteraria. Um, dez ou cem médicos poderiam gastar tempo avaliando, examinando, solicitando parecer; MAS A ÚNICA COISA CAPAZ DE ALTERAR O DESFECHO ERA A REALIZAÇÃO DA CESARIANA DE URGÊNCIA EM BLOCO CIRÚRGICO; e esse importante detalhe não é deixado suficientemente claro na postagem. A médica campinese parece acreditar que qualquer médico, sob qualquer estrutura, poderia realizar o procedimento cirúrgico em bloco como eles fizeram. Dra.Germínia não poderia fazê-lo.
3. O DE ASSUMIR QUE NÃO SABIA DIREITO O QUE HAVIA ACONTECIDO: com suas próprias palavras. Principalmente na questão da troca de ambulâncias. E mesmo assim emitir juízo de valor e julgar o serviço, apontando precipitadamente culpados.
4. O DE SUBESTIMAR O MÉDICO DA UNIDADE AVANÇADA: que avaliou, diagnosticou e traçou a conduta cirúrgica para a paciente.
5. O DE APROVEITAR-SE DO FATO DE O ISEA ESTAR SENDO INVESTIGADO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO: para transferir a responsabilidade para um caso pontual, do qual ela não conhecia a totalidade da sucessão de fatos.

O que poderia de fato ter salvo a vida do bebê?
PRESENÇA DE ANESTESIOLOGISTA + CIRURGIÃO OBSTETRA EM CUITÉ E/OU PICUÍ.

Eu ou a Dra.Germínia abrir a paciente sem indução anestésica e sem qualificação obstétrica para retirar a criança que encontrava-se em sofrimento isquêmico está totalmente fora de questão. Seria imprudente, anti-ético e colocaria em risco vida de mãe e filho.

Ainda, o Descolamento Prematuro de Placenta, que causou originalmente o sangramento, pode ter evolução bastante dramática. De forma que mesmo se não tivesse existido a troca de ambulâncias, o prognóstico do bebê já era muito sombrio devido as duas horas (no mínimo) desde o início do sangramento até a realização do procedimento no ISEA. Conheço casos de gestantes que sangraram em período avançado da gestação da mesma forma, e que RESIDIAM EM JOÃO PESSOA OU CAMPINA GRANDE, entretanto que mesmo assim não deu tempo para salvar a criança.

Foram duas ocorrências graves simultâneas para a mesma USA, em um feriadão, com carência de equipe qualificada para indução anestésica + operação cesariana nas proximidades. A meu ver, não havia nada que pudéssemos ter feito para alterar o desfecho. Falha no suprimento de oxigênio através da placenta pode levar o feto a óbito em questão de minutos.

Por hora, mais nada a acrescentar.
Dr. Alisson Salvador - CRM 8810. Médico da USA-37 em 21/04/2014

Portanto, estando esclarecido que houve atendimento a paciente, bem como que não tinha alternativa a não ser o procedimento cirúrgico (cesariana), o que foi determinado de imediato pelo médico que atendeu a ocorrência, inclusive com o encaminhamento para a unidade Hospitalar recomendada para os casos dessa natureza (ISEA), não há o que se falar em ausência de atendimento  muito menos negligencia.

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