18 de abril de 2012

Crianças que estão passando por estresse emocional são mais sensíveis à dor


Livro publicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria mostra ainda que outros fatores, por exemplo, biológicos e genéticos também podem causar dor.

  Pessoas que tiveram experiências dolorosas na infância e não foram tratadas adequadamente acabam se tornando adultos com limiar de dor mais baixo e vão ter mais queixas. Isso pode ocorrer, por exemplo, com aqueles que passaram por UTI neonatal, explica Claudio Len, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do departamento científico de Reumatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em entrevista publicada em outubro de 2011 na revista SBP Notícias.

O médico, em parceira com outros especialista, lançou recentemente o livro "Consenso sobre Dores Pouco Valorizadas em Crianças e Adolescentes", publicado pela SBP. A publicação traz considerações sobre a cólica no recém-nascido, as dores em erupção dental, na articulação temporomandibular, em membros e conhecidas como “de crescimento”, as que ocorrem em atletas, a abdominal, fibromialgia e a cefaleia/enxaqueca. De acordo com Claudio, cada uma dessas dores apresenta uma prevalência média, mas ele acredita que hoje cerca de 15 a 25% das consultas pediátricas são motivadas por dor. E nas emergências, esse número aumenta.

O médico explica que, submetida à dor constante, a criança pode ter comprometimento nos aspectos físicos, emocionais, sociais, com repercussões na escola, por exemplo. "Uma enxaqueca, uma dor em membros, uma dor abdominal pode fazer com que a criança se isole, fique mais retraída, evite contato social, e com isso passe a ser sedentária, fique triste e o processo vai se retroalimentando", explica o médico na publicação.

Principais causas de dor

De acordo com o especialista, as causas da dor envolvem fatores biológicos, pessoais, como, por exemplo, o limiar da dor de cada indivíduo. Também explica que há famílias com mais queixas de dor e que, às vezes, elas são motivadas por influência cultural ou pode existir alguma questão genética. No entanto, ressalta a grande influência dos fatores emocionais. "Pessoas que estão passando por estresses emocionais são mais sensíveis à dor. Às vezes, são os pais que estão mais sensíveis à criança e percebem as dores dos filhos. Sabemos que nas dores crônicas, como no caso de dores nos membros ou dores abdominais, são crianças com níveis de ansiedade maiores, alguns casos até de depressão. Também é comum descobrirmos episódios como abusos, negligência, alcoolismo na família, problemas escolares, e situações estressantes. Existem causas que são do próprio organismo da pessoa e outras que vêm do ambiente", exemplifica.

Claudio conta que existem dores que envolvem fatores emocionais que nenhum exame detecta. Se uma criança estiver com enxaqueca, por exemplo, e fizer uma ressonância magnética, os resultados serão normais. "Além do mais, não existe exame que mostre se está mais forte ou mais fraca, não se consegue medir a dor, vamos pela opinião do paciente. E não é pelo fato de não haver uma doença orgânica diagnosticada que você vai deixar o paciente sofrer, é preciso tratar", diz na entrevista à revista da SBP Notícias.

O livro publicado pela SBP traz explicações também sobre a eficácia dos tratamentos e faz considerações sobre o excesso de medicação. Segundo o professor, muitos analgésicos e anti-inflamatórios têm efeitos adversos, que precisam ser evitados ao máximo. Além disso, ele conta que uma medicação utilizada para prevenir um quadro doloroso com orientação certamente será menos prejudicial que o uso contínuo de analgésicos e anti-inflamatórios.

"Nosso dever é tratar do paciente não apenas na crise, mas na intercrise, e tentar evitar que venha a ter dor, um estresse também para a família. Muitas vezes isso é possível com mudanças de hábitos", diz. Como exemplo, Claudio conta que se o pediatra sabe que uma criança tem um histórico familiar importante de enxaqueca, e está tendo hábitos de vida inadequados, ele pode tentar mudar isso, o que fará com que diminua a frequência dos futuros episódios dolorosos.

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