17 de abril de 2012

Coluna "Palavras do Padre Luciano"



Salvos pela ressurreição, capacitados para amar e viver 

 *por Pe. Luciano Guedes da Silva Pároco de Cuité

Amigos leitores, irmãos na fé, amado povo de Deus Estamos vivendo a Páscoa, tempo do reconhecimento do Senhor Jesus vivo e ressuscitado. Quero neste artigo, discorrer sobre esta forma de presença, que nos assegura a fé cristã, numa antecipação já experimentada da eternidade, para além do tempo e do espaço histórico. Nos textos sagrados deste tempo pascal, vemos Maria Madalena “chorando”, por não poder tocar o Senhor (Jo 20, 11-18). Tomé quer tocar o lado e ver a marca dos pregos, para poder atestar (Jo 20, 19-31). Pedro, duvidoso, arrisca lançar as redes para pesca, sem saber que o Senhor o orienta e guia (Jo 21, 1-14). São registros do Evangelho de João, sobre as aparições do Ressuscitado e a reação dos discípulos. É bem verdade, caros amigos, que nossos amores humanos são mesmo “limitados”, cheios de sombras e dúvidas. Quando amamos uma pessoa, pensamos que seja para sempre, por exemplo, o amor aos nossos pais, aos amigos, o amor dos namorados e dos esposos e assim por diante. Se não tocamos, se não sentimos, já nos damos conta que não há mais amor. Por isso sofremos a ausência física do outro, nosso amor humano é tão carente que muitas vezes fecha-se nesta dimensão palpável, naquilo que podemos “tocar”. Claro, até aqui, compreendemos e aceitamos nossa condição. É manifestação humana da nossa orfandade, do nosso medo de não sermos amados, do risco de ficarmos sozinhos. Na ressurreição, esta forma de comunicação com o “amado” se torna plena e aperfeiçoada. Isso porque a relação não é mais mediada pelos “sentidos” e sim pela “fé”. Este novo encontro supera o físico e o aparente. Quando perdemos uma pessoa querida, deveríamos também compreender esta nova forma dela “estar presente”, para além do contato sensível. A história por ela vivida abre “perspectiva de continuidade” em nós. Isto é esperança na ressurreição e na vida, exigida como resposta dos crentes. Conhecemos muita gente que perdeu o rumo da vida, pelas perdas emocionais e afetivas. Primeiro é certo que vamos todos perder as coisas, as pessoas também. Ao vencer a morte pela ressurreição, Jesus Cristo abriu para a humanidade, uma compreensão ampla e profunda sobre este mistério que nos envolve. Primeiro, os amores humanos não são absolutos. Eles são reflexos do único e grande amor que a tudo cria e sustenta: Deus. Quando amamos uma pessoa, devemos saber que antes dela nos pertencer, ela já pertence a Deus. Por isso nosso amor não pode ser “possessivo”, mas realizado como ato livre e generoso do “cuidado” ao outro. Amar não é possuir, e sim devolver. Tudo no amor deve ser uma devolução e não um achado do qual nos apropriamos. As pessoas sofrem, por que se viciam em possuir, abrindo caminhos para dissabores e decepções. Do contrário, quem ama com qualidade, aprende a devolver. Devolver gestos de carinho e atenção, devolver para o outro a companhia, a compreensão, e finalmente devolver a vida, que não é nossa, mas sim dom de Deus. Deste modo, a ressurreição de Cristo revela-nos a verdade do próprio homem. Somente o homem aberto a Deus, que responde ao seu amor criador, pode ser capaz de amar. Na ressurreição, abrimos os olhos da fé, para enxergar além das aparências, além do transitório e finito. Na ressurreição, Madalena, Pedro, Tomé e todos os discípulos convertem-se ao Cristo da fé, superam o estágio infantil de suas buscas, aprendem o significado de ser “eterno”. Pela ressurreição também você, é chamado hoje a assumir uma postura mais firme diante da dramaticidade da própria vida e dos limites reais do dia-a-dia. O discípulo de Jesus é alguém que proclama continuamente a vitória do Redentor, porque sabe que a sua vida não tem instalação neste mundo, mas é caminho para o céu, passagem para a glória. Sendo peregrinos no tempo, dirigidos para a eternidade, vamos nos tornando mais leves e menos pesados, mais livres e menos escravos, mais fiéis e menos incrédulos, porque entendemos que a verdadeira vida que perseguimos existe tão somente no autor de todo existente: Deus, o amor absoluto, que não se esgota. Em todos os tempos, e também hoje muitos decidiram amar apaixonadamente “o poder”, o “dinheiro”, “as conveniências do teatro social”, “escravizar outra pessoa, para satisfação dos gostos e apetites”. Se esquecerem que estas realidades são boas, quando nos ajudam a servir e partilhar os bens com os irmãos, isto é, quando nos humanizam. São perigosas e destrutivas quando das mesmas nos servimos para nosso próprio culto. Há quem deseje e acredite que o “paraíso” é aqui mesmo, até o dia em que são surpreendidos bruscamente pela doença e morte, que tudo julga e encerra. A você, amigo leitor, desejo-lhe uma semana cheia da presença do Ressuscitado. Que Ele abra-lhe a visão da fé, para fazer este percurso com inteligência. Um homem aberto a Deus é um homem capaz do bem, capaz de amar, capaz, portanto de merecer a ressurreição, como prêmio a quem escolheu já nesta terra, a vida e o seu valor definitivo. 

Boa semana! 

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