27 de fevereiro de 2012

Uma Nova Mulher...Alexandre J. M. da Fonsêca.

                           Uma   Nova  Mulher...






  

Nos   últimos  anos, temos visto  com  mais  freqüência situações de  violência que  envolvem  a  mulher  em  seu  contexto familiar,  sobretudo  a  partir  das  suas  relações  conjugais,  que  deixam  de  ser  o  grande  sonho  de  suas  vidas e  passam a  ser  sinônimo  de  pesadelo,  descaso  e  injustiça  social.
                  A   formação da  família mais  ou  menos  configurada  nos  termos  de  hoje, são  heranças vindas  da  Europa,  através  da  influência  portuguesa  no  Brasil, que  por  sua  vez, resgatava  ainda  estereótipos  de  uma  família arraigada de  traços  medievais, quando  a  mulher  biblicamente  era   vista  como  doméstica, boa  esposa  e  boa  mãe, como  se   seu  papel  social ainda devesse  ser   reflexo de  um  período   no  qual  a  Igreja  Católica  dominava  as  relações  sociais,  onde  a  masculinidade  prevalecia  em  todos  os  campos. Nesse   contexto,  é  inconcebível  que  a  mulher  moderna deva  ser  concebida  nesses  parâmetros,  os quais  eram  símbolos  de  um  modelo  tão   distante  da  nossa  realidade,  a  Idade  Média (Séc.  V  ao  XV).
                 É  comum  encontrarmos  casos   dos  mais  absurdos  ainda  hoje,  pois  as  mentalidades  se  processam  de  forma  muito  lenta,   ainda  mais  numa  região onde  o  patriarcalismo  foi  tão  difundido  pelos  moldes  coloniais, onde a  posse da  terra gerava  a  submissão da  mulher  ao  homem,  um  “senhor  todo  poderoso” dono  dos  engenhos  e  das  fazendas cafeeiras. Assim,  quantos  dotes  não  eram pagos  ao pai  pela  mão  da  filha?  Quantos  casamentos  arranjados  em  que  a  noiva mal  conhecia o  seu  pretendente?  Afinal, casar-se  até  algumas  décadas  atrás  eram resultados de  acordos  e  alianças político- econômicas  que  uniam  famílias  em  torno  do  poder bem  como  da manutenção  do  status nas  pequenas  cidades do  sertão  brasileiro.
                  Os  séculos  XVIII  e  XIX   foram  fundamentais  para  a  emancipação  do  pensamento  feminista  no  Brasil, pois  devemos buscar  nas revoluções burguesas bem  como no  complexo  século  das  luzes,  onde  muitos  padrões  políticos  foram  quebrados,  mesmo  que  em  prol  dos  ideais  burgueses,  as  transformações   surgiam,  fluíam  e  se  difundiam  por  todo  o  mundo, chegando aqui  no  Brasil no  mesmo  período  em   que  despontava na  Europa  uma  mentalidade  “moderna”, contrapondo  valores  absolutistas  e  ainda  também,  medievais.
               O  modo  de  enxergar  e  fazer  a  política   do  século XVIII  na  Europa  foi  a  base   para   que  novas  transformações  viessem  a  surgir,  como  na  economia, na  religiosidade, no  social,  nas  relações familiares,  enfim,  em  todos  os  campos  houveram   rompimentos  significativos repensando  assim,  o  papel social  de  cada  indivíduo  no  seu  contexto  social.
               A  Primeira  Guerra  Mundial (1914-1918) ocasionou  para  as  mulheres  uma  certa  abertura  no  campo  de  trabalho,  muitas  delas  substituíram  o  trabalho  doméstico  pelas  fábricas  de  munição  e  de  equipamentos  e  isso  se  generalizou  no  sentido  de  romper os  padrões  sociais  dominantes estipulados  em  outro período pelos  grandes impérios   europeus.  A  partir  desse  episódio  a  mulher  sai  dos  bastidores  e  passa  a   ser protagonista  da  sua  própria  vida,   conquistando  espaços  que  vão  desde  o  mercado  de trabalho  até  sua  forma  de  vestir  e  cortar  cabelos,  agindo  com  maior  independência  rumo  ao  que  ela quer,  e não  ao que  querem  para  ela.
                Nesse  contexto,  a  greve  geral  de  1917,  a  criação do  Partido  Comunista  do  Brasil em 1922,  seguido  da   Semana  de  Arte  Moderna propuseram de  certa  forma,  uma  nova  maneira  de  como  reagir  aos  princípios da  exploração capitalista e  de criar  novas  possibilidades  para  a  base  da  população  brasileira. É  assim  que  a  mulher vai  transformando sua  estrutura  de  vida,  paulatinamente  em  meio  à  outras   transformações  paralelas,  principalmente na  política.
              Algumas  das  mulheres  precursoras na luta  dos  ideais  feministas no  Brasil  são Nísia  Floresta e  Berta Lutz.  Nisia  Floresta, nascida  em  1810 no  município  de  Papari,  Rio  Grande  do  Norte, hoje chamada  de  Nísia  Floresta  em  homenagem  à  mesma,  tinha  ideias e  comportamento avançado  para  aquela  época,  era  republicana,  abolicionista,  indianista,  e  principalmente  feminista, isso  quando  essa  expressão  ainda  nem  existia.  Sua  saída  do  país  talvez  tenha  se  dado  devido  a  não-aceitação   do  seu  status  quo,  afinal, naquele  momento não  se  admitia  uma  mulher   com  postura  política  tão  aguçada.   Em  seu  livro  “Direito  das  mulheres  e  injustiça  dos  homens”,  de  1832, Nísia  Floresta  afirmava que:  “Flutuando  como  um  barco  sem  rumo  ao  sabor  do vento  neste  mar  borrascoso   que  se  chama  mundo,  a  mulher foi  até  aqui  conduzida segundo  o  egoísmo  e  o  interesse  pessoal  predominante  nos  homens  de  todas  as  nações”, ou  seja,  um sentimento  de revolta  e  justiça  já  rondava  os  ideais  literários  de  uma  mulher inconformada  com  os   comportamentos  das cortes, onde o  homem,  apoiado  pelos princípios da  igreja, ditavam a  regra   para  seu  convívio  em   sociedade. Conviveu  com  filósofos  importantes da  Europa,  a   exemplo  de  Alexandre  Dumas, Auguste  Comte, Victor  Hugo,  dentre  outros; morreu  em 1875  na cidade  de  Rouen,  França, deixando  grande  contribuição  literária  com  livros  e  artigos  publicados  na  Europa  e  no  Brasil, servindo assim,  de  base  teórica  para  movimentos  e  frentes  de  combate à  opressão  do  homem  aos  direitos  civis  femininos.
            Berta Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo, em 1894.  Era  Zoóloga  de  profissão, tornou-se secretária do Museu Nacional do Rio de Janeiro em 1919, fato de grande repercussão nacional, considerando-se que na época o acesso ao funcionalismo público ainda era vedado às mulheres. Berta  Lutz,  assim  como  era  conhecida, representou o Brasil  no  ano  de  1922  na assembléia geral da Liga das Mulheres Eleitoras, realizada nos Estados Unidos, sendo eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana. De volta ao Brasil, fundou a Federação para o Progresso Feminino, iniciando a luta pelo direito de voto para as mulheres brasileiras. Ainda em 1922, como delegada do Museu Nacional ao Congresso de Educação, garantiu ingresso das meninas no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro,  outro  fato  que  gerou  grande  repercussão pois  o Brasil  ainda  era  muito  fechado  para  a  educação  das  mulheres. Berta Lutz organizou o I Congresso Feminista do Brasil e  junto  a  Organização  Internacional  do  Trabalho  (OIT).  Criou  no  Brasil a União Profissional Feminina e a União das Funcionárias Públicas,  oferecendo  assim,  bases para  discussões e  direcionamento comportamental  frente  às  mulheres operárias  e  trabalhadoras, que  ainda  eram  poucas à  nível nacional.  Berta  Lutz  morreu  no  Rio  de Janeiro  em  1975  deixando  grande  legado ao  inserir,  por  exemplo, a  política  brasileira  aos  ideais  feministas.
              Poderíamos  ainda  citar  vários  nomes   de  mulheres   que  alicerçaram as  bases  do  pensamento  feminista  como  Maria Quitéria (1792 – 1853), Chiquinha  Gonzaga (1847-1935), Cacilda Becker (1921-1969),  Leila Diniz (1945-1972),   Luz del Fuego (1917- 1967),   Dercy  Gonçalves (1907-2008),  dentre  outras  que,  para  elas, não  bastava  seguir  os  padrões estabelecidos,  mas  lutar  pelos  seus  sonhos,  arquitetar uma  vida  baseada  nas  suas  vontades, vontades  de  mulher, assim  como  vontade  dos  homens,  afinal,  o  sexo  não  podia significar  um  abismo  social  que  distanciava cada  vez  mais  a  mulher da  dignidade humana.
             Outro  nome  que  ecoa dando  forças  ao  movimento   feminista  no  Brasil  é o  de  Maria  da  Penha  Maia  Fernandes,  ou  simplesmente  Maria  da  Penha, nome  que intitulou  a  Lei  de  Nº 11.340/06, do  Código  Penal  Brasileiro,  o  seu  objetivo  é  evitar  os assassinatos e  violências físicas e  morais, principalmente  às  mulheres,  presentes  em  lares de  todo  o  Brasil.    Maria  da   Penha,  como  era  conhecida,  é  uma  farmacêutica cearense que  era   alvo  de  um  ciúme  doentio,   seu  marido  tentou  assassiná-la várias  vezes,  numa  destas, Maria  da  Penha  ficou  paraplégica por  um  atentado  a  tiro, fora  as  outras  tentativas  por  eletrocussão  e  afogamento.  Esse  caso,  apenas  um diante   dos  milhares  ocultados Brasil  à  fora,  foi levado  adiante,  Maria  da  Penha  denunciou  as  agressões dando  início  a  uma  larga  batalha  judicial,  tanto  pela  punição  do  marido   quanto pelo  resgate  da  sua  dignidade  feminina.
               Algumas pessoas  comentam  que  após   a  efetivação  da  Lei  Maria  da  Penha  passou  a  haver  mais  violência  contra  as  mulheres,  porém, a  verdade  é  outra.  O  que  acontece  realmente  é  que  muitos  casos  ficavam  ocultados dentro  do  próprio  lar  por  que  além  do  medo  não  havia  especificamente  uma  lei  que  amparasse  as  mulheres,  por  isso  que dá  essa  impressão, quando  na  verdade  a  Lei  encoraja  as  mulheres  e  os  casos agora  é  que  estão   vindo  à  tona,  o  que  antes  não  acontecia.  É necessário  também  que  a  Lei  Maria  da  Penha se estruture melhor  naquilo  que  ela  pretende,  afinal,  mesmo  com  denúncias, mesmo  com  mulheres  indo  às  delegacias,  muitas  mulheres continuam  sendo  assassinadas,  basta  lembrarmos  o  caso  da  cabeleireira  em  São  Paulo, fez oito denúncias  junto  ao  Departamento de Polícia,  fez  gravações  pelo  celular  das  ameaças  do  ex-marido,  instalou  câmeras   de  vídeo e  mesmo  assim, foi assassinada  pelo  ex-marido com  vários  tiros  à  queima  roupa.  Então,  não  basta  a  existência  da  Lei  por  si  só, é  toda  uma  conjuntura  que  precisa  ser  repensada e  revertida  em  apoio  a  mulher que  pede socorro,  por  que  podem  acreditar,  a  partir  do  momento  em que  ela  tem  a  coragem  de  denunciar  é  por  que  já  vem  sendo  massacrada  há  anos...
              Infelizmente   o  Brasil  lidera  o  ranking  das  mulheres  que  mais  são  violentadas  pelos  maridos  em  seus próprios lares.  Para  que  isso  mude,  as  mulheres  também  devem  buscar  seu  próprio  espaço,  sem  restringir ou  limitar  o  seu  próprio  papel  de  mulher,  impor  seu  próprio  trabalho para  colher   seu  próprio  sustento, dividir  sua vida  conjugal  em  todos  os  sentidos, afinal,  ao  ser  mãe,  esposa  e  doméstica,  a  mulher também  pode  ser  médica,  advogada, engenheira  civil, juíza  de  futebol,  mestre  de  obras, diretora  de  empresa,  escritora,   enfim, não  existe  mais divisão  de  gênero  entre  as  profissões,  basta  querer e nunca  aceitar  qualquer  forma  de  discriminação ou  opressão,  seja  no  lar ou  no  trabalho, afinal,  quem  falou  que  a  mulher  é  o  sexo  frágil  é  por  que  realmente  desconhece  a  força  de  uma  mulher...

FEVEREIRO  DE  2012.


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