22 de janeiro de 2012

Coluna Alexandre Fonsêca "Pormenores Da Emancipação..."

 

Pormenores  Da  Emancipação...


Por  Alexandre  J. M.  da  Fonsêca[i]

             Nos  últimos  anos,  sobretudo  após  a  criação   do  feriado  municipal  de  17  de  Julho, que  se  refere  a  doação  de  terras pelo  Cel. De  Milícias  Caetano  Dantas  Correia para  a  criação  da  Capela  de  Nossa  Senhora  das  Mercês  e  conseqüentemente  o  ponta pé  inicial  para  o  povoamento  da  cidade, o  cuiteense  vem  ampliando  sua  visão  sobre a  história  do  nosso  município,  pois sai  um  pouco  de  cena apenas a  questão   do  “25  de  Janeiro”  e  entra  um  outro   contexto, o  da  sua  formação  enquanto  cidade bem como  do  resgate  da  história  e da memória que  se  constituiu anteriormente  a  data  da  reinstalação  da  Comarca,  em 1937.    
            Buscando  mais  a  fundo  alguns  aspectos  da  nossa  história,  desde  1704  já  rondavam  por  aqui, representantes  das  elites  portuguesas  que  buscavam  “terras  boas”  para  a  implantação da   cultura  canavieira ou no  nosso  caso,  a  instalação  de  fazendas para  a  exploração e  efetivação da  posse da  terra com  produtos  de  subsistência e rebanhos  bovinos, pois  foi  nesse  contexto  que  o  Curimataú paraibano interagiu com  a  política  da  conquista  do  sertão,  viabilizada  pelos  portugueses.
            A  nossa  formação geográfica e  histórica antecede no  mínimo, três  séculos de  existência,  daí  a  necessidade  de  desmistificar  a  ideia de  que  nossa  história só  está atrelada  ao  25  de  Janeiro  de  1937,  onde  nesse  caso,  Cuité  teria  apenas  75  anos de  história? (...) Contradizendo essa  ideia, se  observarmos as  1138   “datas” (lotes  de  terras) requeridas pela  ordem junto à  Capitania  de  Itamaracá, da  qual  Cuité  fazia  parte,  a data que  deu origem  a  nossa  cidade recebeu o  número  043,  concedida  em  1704  ao  Conde  de  Alvor,  fato  esse  que   comprova que  Cuité  é  uma  cidade  que  já  tem  uma  produção  histórica  bastante  relevante.
            Sabendo  então  que Cuité já  era  Comarca  desde  1872, representada  pelo nosso  primeiro  Juiz,  o  Dr. Alfredo  da  Gama  Montezuma, de  que   forma  podemos  tratar  o  episódio  do  25  de  Janeiro? De  acordo  com  as  poucas  bibliografias à  cerca do  fato e também  da  tradição  oral, existe  todo  um  contexto por  trás  do  “25 de  Janeiro”. Em  1904 devido  discordâncias  políticas entre  as  oligarquias representadas pelo  Capitão João Venâncio  dos  Santos, o  Capitão Anacleto  da  Costa  Pereira e  também  o  Cel.  Graciliano  Fontino  Lordão (ex-chefe do  nosso  município), a transferência da  Comarca  para  Picuí  seria  uma  forma  de  “desagradar  determinada família” influente  na  política  local, mesmo  sabendo  que  a  transferência  causaria danos  à  toda  população  cuiteense,  o  fato  se  deu  no  Governo  Estadual   do  Dr.  Álvaro Machado,  aos  24  de  Novembro  de  1904, em  atendimento a um  pedido  local, assim  como  se  fazia na  política  dos  Coronéis da  Velha  República. A  Comarca  foi  transferida  para  Picuí  e  lá  permanecendo por  33  anos.  Nesse  intervalo,  pessoas  como Pedro  Viana  da  Costa,  Jeremias  Venâncio  dos  Santos,  Padre  Luiz  Santiago,  Jovino  Pereira  da  Costa,  João  Venâncio  da  Fonseca,  João  Teodósio  da  Silva  Coelho, Rivaldo  Silvério  da  Fonseca,  Ulisses  Viana  da  Costa, Benedito  Regino  Cabral,  dentre  outros,  buscaram formas  de  reverter  essa  situação,  de  trazer  novamente   a  Comarca ao seu devido  lugar,  nossa  cidade.  A  reinstalação  da  Comarca  se  deu  em  25  de  Janeiro  de  1937, um exemplo  de  luta  e  ao  mesmo  tempo de  revolta pelo fato  de  que  não  havia necessidade de  sua  transferência,  em 1904.
            Vê-se  dessa   forma,  que  muitas  vezes  a  política  se  distancia dos   seus  fins  verdadeiros, o de  se  mostrar   como  veículo  rumo o  bem-estar  da  população, uma   vez  que  o  Estado, em  toda  sua  configuração tem  que  promover o  progresso da  sua  comunidade, o crescimento  como  um  todo  e não  alimentar  divergências  locais que  venham  a  regredir  o  desenvolvimento da  cidade. Nesse  sentido, a  nação  brasileira  necessita de uma  política  sadia,  representando  o  Estado Nacional  da  melhor  forma  possível, com  políticos que  criem  projetos,  incentivem  a   economia, invistam na  saúde  e  na  segurança  pública e  principalmente  na  educação,  sem  levar  em  consideração,  por  exemplo,  em  quem  se  votou ou qual a cor do  “cordão”  que  famílias  x ou  y  acompanham,  pois  quando  isso  ocorre, alimenta-se  cada  vez  mais  a  política  de  favores, da  troca  e da  vingança. Não  é  isso  que queremos  para  a  nossa  cidade. Buscamos  um  Cuité emancipado   em  todos  os  setores,   com  geração  de  empregos, com  uma  educação efetiva e reflexiva,  com  uma  política  que  enxergue  o  todo e  não  particularidades, com  a  dignidade  acima  de  tudo,  só assim perceberemos  que  a  verdadeira  emancipação não é  apenas  um  decreto assinado,  mas  uma  forma  do  indivíduo  se  sentir  dono  de  si  mesmo,  ter  discernimento  para  com  o  seu  contexto  social e  participar racionalmente da política,  transformando  e emancipando  suas  condições  de  vida.        



[i] O  autor  é  graduado  em História  pela  Universidade  Estadual  da  Paraíba, Especialista  em  Educação  Básica  pela  Universidade  Estadual  da  Paraíba, Professor de  História  nas  redes Municipal  e  Estadual,  Pesquisador  da  história  local regional,  Escritor e  Poeta.

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