13 de agosto de 2011

Coluna Alexandre Fonsêca "RELIGIOSIDADE E FÉ : PORMENORES DA PARÓQUIA DE CUITÉ-PB."


Prof. Alexandre  J. M.  da  Fonsêca



RELIGIOSIDADE  E  FÉ : PORMENORES  DA PARÓQUIA  DE  CUITÉ-PB


              Analisar  o contexto  que  envolve  a  criação  da  Capela  e  conseqüentemente  da Paróquia  de Cuité  significa,  antes  de  tudo, um  resgate  da  memória daquele  contexto,  o  século  XVIII. Um  período  ainda  marcado  por  uma  forte  religiosidade,  por  uma  cidade  em  formação em  pleno  Curimataú Paraibano e principalmente, pela  lei  de  distribuição  de  terras; o sistema  de  Sesmarias. As  missas,  os batizados,  os casamentos, até as  cerimônias  menos   formais, passaram  ao  longo  desses  210  anos por  grandes  transformações, seja  na  estética  ou até  mesmo  na  essência   de  suas  práticas, pois  a  dois  séculos  a  Igreja  Católica em  Cuité  ainda antecedia  o  Brasil  Imperial, o  qual   reforçava  essa  instituição  no  Brasil   ao  torná-la   como  religião  oficial  do  império  do  Brasil,  seguindo os  moldes  da  primeira  Constituição  Brasileira,  em  1824.

              A  Capela  foi  construída e  dedicada  à  Nossa  Senhora  das Mercês nas  décadas  finais  do  século  XVIII,  graças  a  doação  de  terras  assim  feita  pelo  Sr.  Caetano  Dantas,  estimulando, assim,  o  povoamento  da  nossa  cidade,  que  encontrava  nos  arredores  desta  Capela  o conforto espiritual de um  povoado  ainda  incerto, que  dava  seus  primeiros  passos na  formação de  sua  estrutura, com  cara  de  vila   e mentalidade  provinciana.

            Imaginem essa  Capela  ainda  no contexto  de  Caetano  Dantas (1768)! Como  eram  rezadas  as  poucas missas que  nela  havia,  já  que  nossa paróquia  sediava-se  em  Caicó, no Rio  Grande  do  Norte. Como  era  feito  o  caminho do  Padre  até  nossa Capela?  Em  charretes  puxadas  a  cavalo?  Em  lombo  de  burro,  numa  árdua  batalha imposta  pela  natureza? Será  que  as missas ainda  eram  influenciadas  pelo  latim,  ou  ainda  um  português  latinizado?  O  que  os  poucos  fiéis  esperavam  da Capela?  Como  as  beatas cuidavam  da  Capela? Que  tipo  de  relacionamento  adentrava  os  portões  da  Capela? Que tipo  de  discurso os  Padres destacavam  em  suas Missas? De  que  forma  homens  e  mulheres  se  comportavam  diante  desta Capela?(...) Esses  e  outros  questionamentos   são  apenas  alguns  do  leque comportamental  que  compõe  a  história  da  nossa  extinta  Capela e  que  precisam  ser  levantados  para  construir,  paulatinamente, a  memória  da  1ª Capela  da  Nossa cidade  e, lamentosamente  demolida na  administração  do Prefeito  Basílio  Magno  da  Fonsêca.

              Naquele  período,  Agosto   de  1801,  a  Capela  se  desvinculava  da de  Vila  Nova  do  Príncipe,  assim  como  era  chamada Caicó-RN, por   força  do  Decreto do  então  Bispo  de  Olinda , D.  José  Joaquim  de  Azevedo  Coutinho. A   partir  dessa  data,  nossa  Capela  se  torna  Paróquia,  que  para  a  época  era  um  grande  feito,   até  porque  não  havia  muitas  paróquias  por  perto.  Os  caminhos  eram  tortuosos, não  havia  estradas boas, a distância  só era  vencida  através  de burro  ou  cavalo. A  nossa Capela  ficava onde  hoje  se  localiza  o Hospital  e  Maternidade  Nossa  Senhora  das  Mercês, com  a  frente  voltada  para  o  Banco  do  Brasil,  era  uma  largo,  sem  calçamento,  rodeado   por  casarões  históricos, que  acompanhavam o  mesmo  tempo  da  Capela,  compondo  um  lindo  cenário  típico  do  contexto interiorano  nordestino. Próximo  à  frente da  Capela havia um  campo  de futebol, simples, mas  que  vez  por  outra  contrariava  o  silêncio  da  pacata vila.
 
             No  período  em  que  a  capela  foi  demolida,  já  contava  com  mais  de  um  século e  meio,  por  que tanta  atrocidade  contra  o  Patrimônio  Histórico?  Será  que  não havia  outro  lugar  para  a construção  do  Hospital?  Todas as cidades  mais  antigas  do Brasil,  e por  que  não  dizer  de  todo  o  mundo, preservam  sua  parte  antiga,   histórica,  construindo   sua  arquitetura  moderna  em  outra  parte  da  cidade,  vejamos  o  caso  do  Cairo,  de  Atenas,  João  Pessoa,  Recife,  Salvador,  e  até  mesmo  Araruna,  aqui  na  Paraíba,  que  guarda   a  igrejinha   de  São  Francisco de  Assis  como  uma  jóia  rara  em  meio  aos  poucos  casarões  que  resistiram  ao  tempo.

          A  verdade  é  que  nos  anos  50  Cuité  passava  por  uma grande  “onda  modernizadora”,  provocada  pelo  advento  da  cultura  sisaleira,  um  produto  de  base  agrícola  que  movimentava  e  gerava  grandes  lucros,  tanto  para  os  donos  de  motor  quanto  para  quem  puxava  a  fibra.  O  agave,  assim  conhecido  popularmente,  trouxe  para  Cuité  uma  divisória  entre  aquilo  que  é  moderno  daquilo que  é  antigo,  antiquado. Partindo  desse princípio, os  cuiteenses passaram  a  ter  um estilo  de  vida  baseado  no  modelo  da elite  pessoense,  reproduzindo  seus  valores  e exigindo  novos  padrões  de  vida e  estilo. Nesse contexto, muitas casas,  a  própria  Capela,  o  velho Coreto,  o antigo  cemitério,  dentre outros, foram  considerados  “antigos”,  “inadequados” para aquele próspero  momento de euforia  econômica  e  social  na  qual  vivia  a  cidade,  sendo  demolidos  e  substituídos por  prédios    considerados mais  “modernos”. 

           Podemos  dizer,  então,  que  a  derrubada  da  Capela  se  deu por  parte  do  processo  no  qual  Cuité  estava  inserido:  a  modernização  oriunda  do sisal.  Isso  não  significa que  a   demolição da  Capela  não  pudesse  ter  sido  evitada,  podia  sim, mas  Cuité  estava  mais  voltado  para  arquitetar   um  presente  do que  preservar  “um  passado”,  infelizmente.  Espera-se, com  o  exemplo  da  Capela, que  as   construções em  Cuité  sigam  respeitando  a  memória  dos poucos  casarões  que  ainda  restam, por  que  de  acordo  com  nossa  tradição,  sempre  optamos  pela  prática  do  “destruir  para  construir”,  e  numa  sociedade  em  que  os  antigos  casarões  mal  resistem  ao  tempo, caminhamos  para  formar  um  povo  sem  memória,  sem  história.

          A  Paróquia  de  Nossa  Senhora  das  Mercês  é  representada   atualmente  pelo  Pe. Luciano  Guedes, no  qual  conduz  brilhantemente  suas  atividades  sacerdotais e  alicerçado ainda mais  os  pilares   desta  religião,  na  qual  Cuité  está  ligada  desde  sua  formação.  

         Com  isso, espera-se  que  a  própria  sociedade  reveja  seus  princípios  culturais  e  não  se  deixe levar   pela  tal  modernidade,  que  é  importante, mas  que  deve  ser  conjugada  aos  valores  culturais  e não  sobrepô-los, para   que  nossa  cultura  siga  íntegra  e  mostre,  para  as  gerações   futuras,  um  Cuité  concreto,  e  não  de  fotografias  digitalizadas. 


Cuité-PB, 12  de  Agosto  de 2011.
          
                 

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