21 de julho de 2011

Museu (MHC): visitá-lo, por quê?

 



Cuité...
Sob a sombra da capela vai se erguendo uma história
Que de pedra e de barro construiu-se uma “nação”
Nação de homens mestiços, de cabras da “peste”
De “homens do mato”, pintados ou não
De um quarto de terra, de um metro de chão
De uma cuia d´água, de um vestido rodado
De um índio vermelho, de uma princesa, paixão

No livro de tombo firmou-se a soltura
Foi 704, sua certidão, (sesmaria) 
Ilusão de independência
Mas seguros numa crença, começou-se a “nação”

Sobre os negros ninguém diz nada, só os brancos tem história?
Aqui não viveram? Por que não se tem memória(s)?

Isso é ponto de discussão que eu te faço refletir,
É só um exemplo do que podemos pensar passeando no museu.

Olhemos nosso passado, nossos duzentos e tantos anos
Mas, onde?
Que fotos, que documentos?
Quem guardou a caneta da alforria?
Quem comeu o resto do doce e do queijo?
Quem plantou a primeira maniva?
Também pergunto, no museu não se tem resposta para tudo!
Tem muito para que se gere perguntas...

Olhemos para o passado (repito), preocupemo-nos com o lixo guardado debaixo do tapete.
Para quê?
Para que não erremos também em não guardar no presente, coisas simples, mas fundantes.

Pois, não sejamos tão egoístas para tentar pintar somente o arco-íris.
Demonstremos até mesmo som do trovão que soou pelas bandas do outro lado.
Falemos das tempestades que aconteceram ontem.
Descrevamos a sensação de pisar na lama que restou da trovoada.

Para quem esteve na chuva aquilo pode não ter sido tão entusiasmante, na hora!
Mas, para quem de longe observa, se admira pelo abundante inverno.
E para quem vive dessa lama milagrosa que sabe que: ali “se plantando tudo dá”,
É o milagre da queda d’água! Que a trovoada anuncia!

Que bom seria ver os rastros dos pingos dessa água, ver no chão pegadas dos homens que estavam lá,
Escutar o som dessa chuva e o melhor: perceber a emoção desse agricultor cavando a cova da planta da vida, para que a dele (da morte) seja postergada.



Pensemos...

A história deve ser valorizada, seja de elite ou popular, seja de ontem ou de hoje.
Devemos pintar o quadro da vida, ou melhor, não apagar as pinceladas que:
Nossos pais e nós mesmos deixaremos. Cada um com seu estilo, força, jeito,
Pois, nossa subjetividade, visão de mundo, de ensino ou não, fica ali demonstrado.
Outros aprendem com elas seus próprios traços, respeitam ou criticam, mas pelo menos: tem a oportunidade de ver até que ponto o outro teve possibilidade de chegar, de fazer, de dizer, de negar.

Nosso objetivo é falar de Cuité e do Museu do Homem do Curimataú,
Não de coisas mortas do passado, ao contrário, de memória viva: de cores avivadas por cada olhar.

Das possibilidades, das aulas que poderemos dar ali, das conversas em família, dos filmes que podemos assistir juntos, das poesias que podemos ler e declamar.

Eu e você, pois ali é da comunidade, minha história, suas história...

Portas abertas de um passado que está vivo, precisamos aprender a passear ali e assim apre(e)nder muitos mais do que pensamos, é só conferir, visite-o e veja, sinta e aprecie sentimentos materializados em forma de artefatos.

Claro, a leitura depende de você, o paladar histórico muda a cada visitante, pois boa parte da leitura do artefato está escrita na sua memória.

Basta (re)ler!

E...
Só experimentando para saber.


Israel Araújo
 
 
 
 

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