10 de julho de 2011

Cidadania, Qualidade da Informação Jornalística e o papel dos Blogs

Franklin Martins

A chegada de novos meios é um elemento progressista para a sociedade. Aprofunda a democracia, a entrega da informação e faz com que as pessoas possam se informar melhor, decidir melhor, controlar melhor seus destinos.

Midia e Política


Os blogs funcionam como um elemento organizador, catalisador. Em torno de uma série de blogs vão se formando outros blogs, alguns deles desempenhando o papel de terrenos públicos, de formação de opinião, de debate, de encontro. E começam a fazer um trabalho de crítica dos jornais. Saiu uma notícia no jornal – televisivo, impresso, on-line, etc. – e uma hora depois, na blogosfera, todo mundo está comentando, discutindo se aquilo está correto, se não está, dando uma outra versão, acrescentando informação, muitas vezes qualificando aquela informação. Seja positivamente, agregando informações novas. Ou negativamente, dizendo “não é isso, aqui é diferente, trata-se de outra coisa”.


Os jornalistas só foram treinados para dar satisfação a uma pessoa: o chefe, o acionista, o dono do jornal, o dono da televisão. É para isso que jornalista foi treinado. Os bons jornalistas sabem que é preciso dar satisfação à sociedade. Mas um bom número de jornalistas acha que o importante é a sua carreira, o seu chefe, o seu jornal, os seus colegas e que é preciso apenas conviver com a sociedade, ela não é tão importante assim. Não entenderam a essência da profissão, que a lealdade principal do jornalista é com a sociedade e não com o dono do jornal, o chefe, a carreira, as fontes. Sempre que tiver uma contradição, a opção tem que ser pela sociedade. Assim são os grandes jornalistas, que sabem que o jornalismo é uma missão, é informar a sociedade e que, para isso, é necessário dar satisfação a ela antes de tudo.

O jornalista convive muito mal com essa crítica. E convive, isso é curioso. Não sei quem vive mais preocupado com o outro, se é a blogosfera, que vive preocupada com os jornais ou se são os jornais, que vivem preocupados com a blogosfera. Os caras da blogosfera acordam, vão ler os jornais e criticam, e os caras dos jornais, os grandes colunistas estão o tempo todo ali na blogosfera, pelo menos ali em oito, dez blogs porque sabem o seguinte: aquilo ali está fungando no cangote deles. E isso é ótimo, jornalista descer do pedestal, jornalista dever satisfação – mesmo que de uma forma envergada, truncada – à sociedade e não apenas aos acionistas dos jornais e seus prepostos.

Isso fará os jornalistas fazerem um trabalho melhor. E fará aumentar o peso do público no jornalismo. Por que qual é a grande contradição do jornalismo? O jornalismo é um espaço público. Quando não é, ele vai até certo ponto e para.

Jornalismo, para atingir um grande público, precisa ser um espaço público, onde o público vai achar informação qualificada, independente e honesta, sem grandes manipulações. 

O jornalismo tem que ser independente da opinião dos acionistas. Tem que ser dependente de uma coisa: dos fatos. Jornal existe pra correr atrás de notícia e fazer matéria sobre o que aconteceu, não sobre o que eu queria que acontecesse ou o que eu imagino que possa acontecer e pode ferir esse ou aquele interesse.

O jornalismo é um espaço público e é mediado por interesses privados das mais diversas naturezas, O bom jornalismo é onde os interesses privados pesam pouco e a compreensão de que aquilo é um espaço público pesa muito.

Costumo dizer que a blogosfera é o grilo falante da imprensa hoje em dia no Brasil. Pinóquio contou uma mentira: “Pinóquio, o seu nariz está crescendo”. Pinóquio manipulou: “Opa, está manipulando, Pinóquio”; Pinóquio fez com que os interesses ideológicos, econômicos, políticos dos acionistas prevalecessem sobre o espaço público e o cara diz: “Qual é Pinóquio, está achando que nos engana?”. Podemos chamar a era da rede de era do Pinóquio. Há um Pinóquio que diz à imprensa: “não é bem assim!”.

Na blogosfera, estamos na superfície, temos que aprofundar. E para aprofundar é necessário recursos, dinheiro, coisas que permitam bancar a sobrevivência de alguns profissionais durante um determinado tempo para que sejam capazes de fazer uma apuração que não seja algo que já está ali, ir além do que existe. Esse é o grande desafio da blogosfera.


O bom jornalismo deve ter duas coisas. Uma eu já falei, que é a dependência dos fatos. A segunda é a busca por isenção. Eu vejo muito na blogosfera: “ah esse negócio de isenção não existe, ninguém é isento”. Isento o tempo todo ninguém é. Mas buscar a isenção é uma atitude, é um comportamento. Mesmo que não se consiga ser isento, mesmo que, de alguma forma, se contrabandeie preconceitos, pois nós somos seres humanos, a busca da isenção permite o entendimento de que o jornalismo é uma atividade pública, não é uma atividade privada.


Basta termos consciência de que a função do jornalista não é pegar o país pelo nariz e puxar de lá para cá, a função do jornalista não é comandar o país. A função de dono de jornal não é dizer para onde o Brasil tem de ir. Quem diz para onde o país tem de ir é o eleitor, que elege, que decide e que cobra depois. Se não foi bem, tira do governo nas próximas eleições. Essa não e a função do jornalismo. A função do jornalismo é ir aos fatos, dar a notícia, buscar isenção, fazer do jornalismo um espaço público, qualificar o debate público com pluralismo, são coisas simples, mas que o jornalismo do Brasil, na era do aquário, tem muita dificuldade de fazer.




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